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Ahá, Enganamos Vocês! Bichos Que Parecem, Mas Não São!

Ahá, Enganamos Vocês! Bichos Que Parecem, Mas Não São!

Entre 2012 e 2016, após retornar os EUA, morei em uma cidadezinha chamada Barra do Turvo, localizada no Vale do Ribeira, estado de São Paulo. A cidade tem ao redor de 7.800 habitantes e sua economia baseia-se a agricultura de subsistência. Mas, sua verdadeira riqueza está em suas montanhas, suas nascentes de águas cristalinas, seu ar puro e povo hospitaleiro. Como eu fui parar lá? Bem, a história começa quando eu tinha quinze anos e ouvi falar sobre “A Caverna do Diabo”, localizada em Iporanga, SP. Pensei em ir até lá de bicicleta e, olhando em um mapa, vi que o caminho mais curto passava por Barra do Turvo. A viajem nunca aconteceu, mas, por alguma razão, o nome “Barra do Turvo” ficou gravado em minha memória. Quase trinta anos se passaram e, depois de muitas andanças e experiências profissionais em diversas áreas, resolvi, como Engenheiro Agrônomo, atuar em algo que deveria ter feito desde que me formei: Agroecologia. Fiquei sabendo de uma cooperativa de agricultores que produziam seus alimentos no sistema chamado Agrofloresta e, adivinhem onde ficava a cooperativa? Isso mesmo, Barra do Turvo. Lá na Barra conheci o Pedro e a Maria, proprietários do “Centro de Envolvimento Agroflorestal Felipe Moreira” e, depois de algumas visitas e troca de ideias, resolvi mudar-me para lá. Entre outros afazeres, fui dar aulas na Escola Estadual Professor Luiz Darly Gomes de Araújo, nas matérias de biologia, química, física, geografia, inglês e, também, filosofia! Lembro-me que nos primeiros dias os estudantes me olhavam com estranheza, até que fui dar aula em uma turma de primeiro ano do ensino médio. Apresentei-me como o novo professor de física e comecei a falar sobre “Movimento Retilíneo Uniforme – MRV”.  Após uns quinze minutos falando, uma menina levantou a mão e perguntou: “— Professor, é verdade que o senhor morou nos Estados Unidos?”. Ao responder que sim, ela prosseguiu: “— E o que é que o senhor veio fazer nesse buraco de fim de mundo chamado Barra do Turvo?”. E, então, respondi: “— Vou dizer uma coisa para vocês: já morei em várias partes do Brasil e, durante dez anos, na Califórnia, Estados Unidos, um estado que, sozinho, é considerado a quinta economia do mundo! Lá eu morei em várias cidades do vale central, mas em nenhuma delas eu podia usar a água da torneira para beber ou, mesmo, para cozinhar, porque a água era contaminada por vários resíduos químicos, como gasolina, agrotóxicos e, até, urina de vaca! Nas escolas havia um mastro onde era hasteada uma bandeira que podia ser verde, amarela ou vermelha. Quando a bandeira estava vermelha, queria dizer que a qualidade do ar estava péssima e que, por isso, as crianças iriam ficar o dia inteiro dentro da sala de aula, sem sair para o recreio! Eu tinha uma casa de dois andares, com ar condicionado central, calefação, dois carros na garagem e uma série de facilidades que são consideradas “qualidade de vida”. Por circunstâncias da vida, tive que deixar tudo para trás e voltei para o Brasil. Mas, isso tudo me fez pensar sobre o que realmente é fundamental para vivermos? E a resposta é: primeiro, alguma coisa ou alguém que nos dá a vida, a qual chamamos de Deus; segundo, o ar, pois a gente consegue ficar sem oxigênio por três a quatro minutos, mas, a partir daí, nosso cérebro começa a se degenerar; terceiro, a água, pois podemos ficar sem tomar água por até cinco dias, mas, depois, nosso corpo começa a entrar em colapso; e, finalmente, alimentos, pois, a menos que consigamos viver de energia solar, podemos ficar até trinta dias sem comer, só que, depois disso, começamos a definhar. Vejam o que fazemos com nosso planeta! Para termos essa tal “qualidade de vida” poluímos o ar, a água e os alimentos, coisas que são realmente fundamentais para nossa vida, em troca de “conforto e comodidades”. Será que isso vale a pena? Olhem ao redor de vocês! Barra do Turvo é repleta de ar puro, fontes de água em abundância e vocês ainda produzem muitos alimentos sem veneno! Isso é uma riqueza incalculável que eu não encontrei em nenhum dos lugares onde eu já vivi. Por isso, jamais chamem Barra do Turvo de buraco, de fim de mundo, pois vocês não sabem a riqueza que isso aqui representa! Na classe fez-se um silêncio profundo até o final da aula. Lecionei por nove meses, até o término do ano letivo. Infelizmente, não consegui aulas para o ano seguinte, indo, então, trabalhar como agrônomo para a prefeitura. Um dia encontrei um ex-aluno e ele me perguntou se eu não iria mais dar aulas. Eu respondi que não, porque, entre outros fatores, o pessoal fazia muita bagunça na sala e não prestava atenção. Mas, então, o que ele me disse fez valer todos os problemas que enfrentei como professor de uma escola pública: “— É, professor, a gente “zoava” muito nas suas aulas, mas aquilo que o senhor falou sobre o ar, a água e Barra do Turvo fez a gente pensar e o pessoal, depois da aula, ficou falando sobre isso”.

Mas, o que esse livro tem a ver com tudo isso? Bem, graças às matas, à diversidade biológica da mata atlântica local e das agroflorestas, esses pequenos seres, insetos, sapinhos e aves, ainda podem ser encontrados. Cada vez que eu encontrava um deles eu os fotografava, até que, um dia, veio-me a ideia de fazer o livro. Dentre eles, destaco o Surucuá, uma ave que tem um canto que se assemelha ao latido de um cachorrinho, só que ela tem a capacidade de alterar o timbre do canto, fazendo com que pensemos que ela está perto, quando está longe, e vice-versa. O primeiro bichinho a ser fotografado foi a “mariposa bicho-papão”, a qual tem um pintura nas asas que formam o rosto de um bicho em 3D. A cada dia surgia um bicho diferente. O Urutau (também chamado de mãe-da-lua) possui um canto sinistro-melancólico e permanece imóvel por horas, realmente parecendo um pedaço de pau. Enfim, toda essa riqueza estava lá graças ao trabalho de preservação dos agricultores agroflorestais e às pessoas que se conscientizaram da importância que a mata tem, aos quais dedico esta obra. COMPRAR

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